terça-feira, 24 de abril de 2012

10º Capítulo: Nova protetora, novo protegido


Acordei. Abri os olhos. É hoje. Hoje? É como se eu estivesse renascendo, renascendo para meu pai. Ele está de volta e isso é meio inacreditável. Depois desses anos todos me convencendo de que ele se foi e que não voltaria, sua chegada acabou desmoronando todas as minhas certezas. Eu sei que estou muito feliz, como não estaria? Meu pai, aquele que sempre me acolheu e me protegeu estava comigo novamente e eu espero que isso não acabe, mas e se acabar? Balancei a cabeça na esperança de que isso fizesse meus pensamentos desaparecerem. Melhor não pensar no que aconteceu ou irá acontecer, vamos viver o aqui e o agora, não é mesmo?

Coloquei meu vestido de babado rendado e minha sapatilha. Passei o delineador no espelho e olhando para mim mesma disse: “Agora é a hora.”

Desci com um sorriso enorme no rosto e esperei que a expressão no rosto da minha mãe não estivesse muito diferente da minha. Ela parecia ter mudado desde a noite passada. Talvez ela tenha pensado bem e finalmente percebeu que o amor da sua vida estava de volta. Mas quando localizei seus olhos pude ver que havia olheiras. Ela não tinha dormido direito.

“Você vai encontrá-lo daqui a pouco, né?” - Ela mencionou depois de uma pequena conversa de como foi a nossa noite. Ela insistiu em dizer que a dela foi ótima.

“Quem? Meu pai?” - Eu disse como se não houvesse anormalidade nessa situação.

“Sim, ah...” - Ela mesma se interrompeu.

“Pode dizer mãe. Sério. Eu estou feliz demais por ele estar aqui, eu só queria que sentisse o mesmo.” - Eu a olhei no fundo dos olhos e depois de uma breve pausa, ela desviou.

”Quem disse que eu não estou feliz?” - Ela virou para pegar o café na pia.

“Eu vejo mãe. No seu rosto e inclusive nas olheiras.” – Apontei para elas e minha mãe olhou para mim, dando um sorriso.

“Ah, isso não é nada é só que...” - Ela se interrompeu e com o olhar eu a encorajei a continuar. “Bom, eu só estive pensando: Será que ele veio para ficar? Eu não posso dizer que não é isso que eu quero, pois estaria mentindo. É claro que eu quero. É tudo o que eu sempre quis. Eu só estou tentando não pensar muito nisso, porque quando ele me desapontar, o tombo não será tão grande e... eu não serei tão desapontada!”

“Mãe...” - Eu não tive coragem de terminar. O que ela sentia, eu também sentia. Levantei e a abracei. “Eu também tenho medo, mãe. Eu acordei pensando em como eu me sentiria se ele fosse embora novamente. Eu demorei tanto tempo para tirar da minha cabeça que ele voltaria e quando eu finalmente sei que isso é a verdade, ele reaparece do nada e faz com que tudo, exatamente tudo, mude. Mas se eu não estiver junto dele, nunca saberei se ele vai ficar comigo ou com nós. E se você não tentar, não conseguirá reconquistá-lo. Ninguém consegue viver de coisas que acreditam estar solucionadas, nem de atitudes que guardam pra si. Por isso, mude seus pensamentos, viva e faça tudo àquilo que achar necessário.”

Quem diria? Eu, Julia, dando conselhos para alguém tão especial quanto minha mãe. Está certo que eu falei coisas que nem eu mesma sinto, mas se for pra fazê-la mais confiante, assim o farei.

“Está bem.” – Foi à única coisa que ela disse após dar-me um beijo na testa e dizer para eu me cuidar no caminho até o Shopping.

A caminhada foi longa, mais longa do que o habitual. Era estranho, afinal... Eu estou totalmente ansiosa para vê-lo. De repente, algo que não me parecia mais familiar veio a minha mente. Eu estou muito ocupada ultimamente e parece que isso ajudou a esquecê-lo, pelo menos temporariamente. Gabriel está sumido, meu pai voltou. Porque nós não podemos ter tudo o que amamos ao mesmo tempo? Porque nunca podemos ser felizes por completo? Eu tive que parar minha linha de pensamentos por aqui, pois ali estava eu: na frente da porta do Shopping.

Entrei rapidamente e fui em direção à praça de alimentação, onde combinamos o encontro. Rodei meus olhos em torno do lugar. Não era muito grande, mas o suficiente para não encontrar alguém. Por sorte, o lugar estava vazio e encontrar meu pai não foi difícil. Parei por alguns instantes e o observei de longe, mas quando vi, já estava me jogando em seus braços.

O abraço dele era quente, carinhoso e cheio de amor. Eu não me lembrava como era sentir o calor de seus braços envoltos em mim. Era como se tudo o que eu sempre quis estivesse ali, como se ele pudesse defender-me de tudo e qualquer coisa que ousasse me magoar. Naquele momento, era como se nada tivesse mudado, como se ele nunca tivesse partido, como se nunca fosse mudar.

Meu pai me soltou e então percebi que não estávamos sozinhos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

9º Capítulo: Visita incorretamente correta



            Trindom, Trindom, Trindom

Acabei de retomar a consciência em meio ao desespero de alguém tocando a campainha.

Trindom, Trindom, Trindom

“Já vai!” – Gritei, mas duvido que adiante muito, porque ela continua a tocar. Vesti um roupão por cima do pijama e desci correndo. Abri a porta e lá estava ele. O carteiro.

 “Bom dia, desculpa a demora. Eu...” – Olhei para mim mesma de cima para baixo. E ele acompanhou meu olhar. E sorriu. Eu provavelmente estava parecendo um tomate.

“Tudo bem, mocinha. Eu só quero entregar essas cartas.” – Ele as me entregou.

“É... Obrigada.” – Eu lhe disse em meio àquele constrangimento. Ele assentiu e partiu para o vizinho.

Fechei a porta e li os remetentes. O primeiro do meu Gabriel é claro. Abri-a imediatamente como se a outra não existisse. E lá estava àquela linda letra, depois de ele ter me dito que não voltaria a escrever-me.

“Irei direto ao ponto. Eu não quero continuar com essa história ridícula. Você não é minha. Eu não sou seu. Pelo contrario eu já sou de alguém. Eu não preciso de ti, aliás, eu só estava lhe usando. Não vou entrar em detalhes agora. Não lhe interessa. Suas atitudes são as piores e sinceramente, é melhor para você mesma que esse sentimento desapareça rapidamente, assim como surgiu. Se serve de consolo eu nunca lhe amei. Pode odiar-me, isso somente vai ser igualar aos meus sentimentos. Todo esse tempo não significou nada para mim. Somente algo que eu poderia passar com qualquer pessoa. Nada extraordinário. Nunca foi. Obrigado por ser uma distração em meio há tantos séculos. Adorei ‘brincar’ de adivinhar seu futuro. Até nunca mais!”

Não. Não. Não. Ele não pode fazer isso comigo. Ele nunca poderia. Não o meu Gabriel. Dos meus olhos escorriam lagrimas como se nunca fossem parar. Minha vontade era de correr, abraçá-lo e dizer que nós éramos um só. Mas eu sei que isso agora é impossível. Nada mais será capaz de me deter. Eu irei aonde tiver que ir para tê-lo. Não, ele não pode ter feito isso. Agachei-me e não consegui mais levantar, as lágrimas iam corriam pelo meu rosto e tinha fim na minha boca, juntamente com meus gritos desesperadores. Meus pensamentos já estão se despedaçando, assim como meu coração. É como se eu estivesse me jogado de um penhasco. Como se estivesse a ponto de morrer. Meu corpo dói parecendo que eu estou sendo espancada. Minha alma, meu coração, meus sentimentos... Todos eles exatamente como um papel amassado. Como se fosse somente lixos, lixos sem nenhuma importância. Isso não poderia acontecer. Jamais. Eu preciso encontrar minha mãe, talvez ela saiba de alguma pessoa da família que possa ajudar-me.

Corri para a porta, sem forças para ficar em pé. Sai correndo para a rua, sem olhar para nem um lado. Foi quando de repente, uma moto passou e eu não soube nada, somente que tudo escureceu. 

***

Eu estava ali. Sentada em um campo realmente belo. Parecia a Praia de Barra Grande. Sua paisagem estava mais bela do que nunca e eu encarei o mar. Ouvi uma brisa correr, ela era realmente boa. Fechei meus olhos e respirei profundamente, quando ouvi uma grande gargalhada assustadora. Olhei ao meu lado esquerdo e lá estava ele. Alguém que eu não conhecia e mesmo assim, me fazia sentir muito medo. Ele caminhava até a mim e sua voz era intensa e totalmente escandalosa. Por onde ele passava tudo era destruído. O mar, o céu, as plantas e árvores. Tudo transformado em cinza. Ele se aproximava cada vez mais de mim e eu comecei a correr porem era em vão. Como quando uma cobra lhe hipnotiza e não importa quanto você corra, sempre estará indo para o lado contrário. Ele se aproximou de mim. Sua gargalhada cada vez mais próxima até chegar ao ponto em que sua respiração se dispersava junto a minha. Ele passou a mão desde o topo da minha cabeça, até chegar a meu queixo e dizer: “Que pena que Gabriel não conseguiu Júlia”, com gargalhadas ao final. Levei um golpe, realmente grande em minhas costas e cai no chão. Antes que meus olhos pudessem se fechar, percebi alguém correndo em minha direção do lado direito. Ele estava realmente triste e lágrimas escorriam de seu rosto, até que o homem parou suas gargalhadas e disse: “Afaste-se, Gabriel.“

Meus olhos abriram-se e incomodaram-se com a luz. Instintivamente fechei-os e pressionei. Pensei em segundos no que eu tinha visto. Parecia real, mas era apenas um sonho. Gabriel não estava lá e eu estava agradecida de que aquele outro homem, também não estava. Abri meus olhos novamente depois de alguns segundos. Ao meu redor há dezenas de materiais que têm semelhança com hospitalares, provavelmente é onde estou: um hospital. Meu nariz possui um inalador, em meu braço soro. Meu pé está enfaixado. Tecnicamente, tudo para fazer eu me sentir melhor. Como se fosse possível. Como se tudo isso fosse algum tipo de curativo para meu coração. Tentativa em vão. Nada conseguirá curar o ferimento que ele deixou. Instantaneamente tentei recompor meus pensamentos e esse é um dos poucos que poderia lembrar. Pensei imediatamente no que eu fiz naquela hora, Eu não queria pensar nele. Eu não poderia, não posso. Lembrei de abrir minha porta e depois de algo bater em mim bruscamente. Lembrei da mota, do motorista, do carteiro, da carta, do Gabriel. Balancei a cabeça tentando fazer com que meus pensamentos se dissolvessem porem todos os fios do aparelho me impediram.

Ouvi a porta se abrindo e a encarei, esperando ver alguém que realmente fosse importante. Era minha mãe. Por um momento eu achei que poderia ser outra pessoa. Inteligível e Inalcançável.

“Júlia, Júlia meu amor. Eu não acredito. Oh Meu Deus! Você, você está acordada!” - Disse minha mãe em meio a lagrimas e desespero.

“Sim mãe, eu estou. Não chore. Eu só dormi algumas horas, não há porque se preocupar. Desculpe-me eu não sei direito o que acontece. Só percebi agora que tudo está tão...” - Falei desesperadamente até ser interrompida.

“O que? Horas? O que quer dizer com isso? Você sabia que eu passei vindo aqui uma semana, todo dia, para saber se você tinha acordado? Pareceu uma eternidade. Os médicos não tinham muitas esperanças e você não dava sinais de que iria acordar.” - Minha mãe disse mais soando como uma repreensão do que como preocupação.

“É... Desculpa mãe. Eu não imaginei que seria tanto tempo. Parece apenas que, não sei, passaram-se horas.” - Olhei-a e ela me abraçou. Retribui da maneira que eu pude.

Minha mãe passou uma hora inteira conversando sobre como foi à semana e dizendo que o motorista estava bêbado e já ia ser responsabilizado. No fundo, eu sabia que também tive culpa, mas ele tinha uma muito maior. Os médicos me visitaram, comi e eles disseram que eu realmente não parecia nada com como eu estava ontem. Realmente, eu queria estar melhor cada vez melhor. Sempre odiei hospitais e o cheiro me fazia enjoar. E a comida então? Eles disseram que eu faria novos exames e que já iam desenfaixar meu pé, pois era o dia certo, mesmo se eu não acordasse.

***

Dois dias passaram e eu já estava me arrumando para ir pra casa. Coloquei uma roupa qualquer e sai do banheiro e encontrei minha mãe e Rafael. Abracei ambos

“Não acredito que hoje vou sair daqui.” - Disse realmente entusiasmada.

“Hum... Eu tenho uma surpresa!” - Ela disse não muito alegre e Rafael sorriu.
“Acho que vai gostar” - disse Rafael, dando pulinhos.

“O que seria melhor do que sair daqui?” - Disse levantando as sombrancelhas e olhando para os dois.

“Pode entrar.” - Disse ela não tão entusiasmada como Rafael estava. Ela olhou para trás e depois para mim. O que seria?

A porta se abriu e eu pude ver flores e alguém atrás delas. Alguém muito familiar. Alguém que eu conheceria em uma multidão, alguém que eu podia confiar. Alguém como... Como um PAI! Ele abaixou as flores e lá estava ele. Alberto. Meu pai!

            Corri e meus olhos estavam escorrendo grandes lagrimas. Pulei em seu colo e o abracei o mais forte que pude. Eu não poderia ter recebido uma surpresa melhor. Depois de tantos anos, lamentando e contando os dias para que esse momento acontecesse. Depois de ter colocado até na cabeça do meu irmãozinho que isso aconteceria, de ter contado todas as nossas historias a ele, para que quando nosso pai voltasse, nós pudéssemos estar felizes do mesmo modo. Eu não quero soltar. É como se minha eternidade pertencesse a seu colo. Nada é melhor. Nada mais perfeito.

            “Pai, papai. Eu não acredito. É o senhor, o senhor. Mesmo!” - Falei passando a mão em seu rosto. Ele fez o mesmo. Ao responder-me.

            “Oh, meu pequeno bebe. Julia, como você está linda e tão crescida. Eu lhe procurei, soube por um parente que você estava naquela casa e enviei uma carta que provavelmente chegou no dia do acidente.” - A carta, quer dizer, a carta que eu não dei importância. Ele olhou para ver a expressão de meu rosto e então prosseguiu:

            “Deixei um telefone, e Jo...” Ele interrompeu a si mesmo. ”Sua mãe decidiu que era hora de me contatar. Esperei até se recuperar, porque não queria em nenhum momento atrapalhar. E eu estava em... Digo, longe” - Ele disse olhando para o chão e escolhendo as palavras certas.
           
            “Nada importa. Você está aqui agora. E isso é muito importante para mim.” Eu disse caminhando seu rosto a minha face novamente. Ele sorriu.

            “Eu preciso conversar com você, me encontre amanhã às Vinte Horas no Shopping, perto da Praia de Barra Grande” - O nome me fez lembrar o sonho e do... Dele. Ele tirou um papel e uma caneta e escreveu alguns números. “Esse é meu telefone. Qualquer coisa me ligue.” Ele entregou a mim.

            “Mas o senhor não quer ir lá pra ca...” - Minha mãe me interrompeu.

            “Acho que você devia descansar por hoje Júlia.” - Joana disse.
            “Sua mãe tem razão, querida. Vá descansar e amanhã conversaremos sobre o que quiser, está bem?” - Ele me deu um beijo na testa.

            “Tudo bem“ - O abracei novamente. E ele foi em direção a Rafael. Deu-lhe um abraço.

“Esse é meu menino. Amanhã vou te buscar na escola e ai sim nós vamos passar momentos de homem” - Ele piscou para Rafael, Rafael sorriu e balançou a cabeça de representando um sim. Observei meu pai partir. Minha mãe estava com uma expressão vazia desde o carro, até em casa. Após o jantar a única coisa que disse foi:

“Seja bem-vinda novamente. Vá dormir cedo, amanhã será um longo dia.”

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

8º Capítulo: Arquivos de Família

            Eu acordei com uma meta hoje. Eu iria descobrir tudo sobre meu protetor, ou melhor, Gabriel. Ele esteve ao meu lado, todo esse tempo. Agora é a minha vez de estar lado dele. A manhã seria corrida, eu sabia disso. Por isso a iniciei com um grande prato de cereais matinais. Minha mãe estranhou essa minha repentina fome pela manhã. Afina, o café da manhã é sempre a minha menor refeição.

            "Mãe, preciso dos arquivos e tudo mais sobre nossa família."– Falei em um tom decidido, nem eu mesma sabia que havia essa determinação em mim.

            "Está tudo no porão filha. Eu não posso ir com você agora, mas..." – Sua voz foi gradativamente silenciando-se e eu tinha certeza de que tudo veio a tona: Meu pai. No começo eu achava que ela sabia para onde ele havia decidido ir, mas com os anos eu percebi que sua dor era tão grande, que ela não conseguia nem pensar no assunto. Os arquivos de família eram a paixão dele, então ela não conseguiria e eu não a cobraria por isso. Jamais.

            "Tudo bem, eu vou sozinha." – A interrompi.
           
            Ela assentiu com rugas entre a sobrancelha. Percebi que o canto de seus lábios começou a recair sem ela mesma perceber. O que minha mãe precisa agora é de privacidade. E é isso o que eu vou fazer, pois ela merece ser feliz, e com as lembranças sendo remoídas nada será esquecido.

            Meu pai era quem cuidava de tudo, esses arquivos eram exatamente o que ele tinha de mais precioso e com certeza, toda a família pensava assim. Era como se você pudesse voltar ao passado e viver tudo o que seus antepassados viveram. Eu lembro como se fosse hoje como ele dizia com carinho sobre tudo. Eram tantas historias e diferentemente de todas as outras, essas eram interessantes. Como ele dizia... “Estava no sangue” e deve ser por isso que eu sempre gostei.

***

            As escadas que davam para o porão são exatamente como em filmes, talvez todos os porões – pelo menos os que permanecem intactos ao passar os anos – sejam iguais. Eu nunca havia vindo aqui desde a mudança. No porão está tudo completamente sujo e não há mais nada além de dois armários e uma mesinha no canto do cômodo. A mesa parecia ter sido usada há pouco tempo, pois o pó estava fincando–se ainda. Estranho, vou conversar sobre isso com minha mãe depois, pois ela com certeza não esteve aqui.

            Decidi não enrolar mais e fui à busca dos livros. Os arquivos ficavam divididos conforme a letra inicial do nome do antepassado da família. A cada década uma pessoa ficava responsável por introduzir nomes a esse livro. Encontrei o livro pertencente à letra G e vasculhei cada linha, em busca de uma única pista sobre Gabriel Stoni Bonsóar, e o mais estranho é que não há nada. Gabriel Avelar, Gabriel Beonino... Gustavo Feróin... E nada do meu Gabriel.

            Sentei–me na mesa e decidi pensar um pouco no que meu pai me contava. Imediatamente lembrei–me de uma história. Quando eu tinha mais ou menos oito anos, meu pai me disse sobre um livro de magia. Esse livro pertencia à alguém que morreu à muito tempo, mas não conseguiu ingressar em um novo mundo. Hoje tudo fazia sentido. Esse era o livro de Gabriel. Mas como o encontrar? Eu me fixei nas histórias de meu pai e tentei procurar algum lugar que possivelmente esse livro estaria. Castelos, fazendas, nuvens, planetas distantes... Em nenhum deles, com certeza.

            Segui os próximos setenta minutos tentando me concentrar e lembrar como eu poderia encontrar alguma pista de como chegar à verdadeira história de Gabriel Stoni
Bonsóar. Eu ficaria aqui pelo restante do dia, Mas...

“Júlia, Júlia minha filha! Você está ai?”- Minha mãe me chamava terrivelmente desesperada.

“Estou aqui mãe!” – Tentei acalmá-la
           
“Graças a Deus Ju! Eu havia esquecido que você estava ai. Você pode subir para comermos?”

            “Já estou a caminho.”

            Olhei mais uma vez para aquele lugar. Eu sentia que faltava alguma coisa, mas resolvi deixar para depois. Afinal, estava com muita fome. Eu não sabia por onde começar, nem onde eu iria chegar, só sei que hoje o que eu mais quero é ele. Seu bem. Mesmo que todo mal caia em mim. Eu tenho certeza que é o que ele faria por mim. É o mínimo de retribuição que eu posso transparecer.

            Apressei-me e cruzei até a metade do porão até que eu tropecei. Era um tapete, mas não foi ele o culpado pela minha queda. Na verdade, havia alguma coisa abaixo deste.
Não me contive. Ao levantar o tapete, encontrei um cadeado que aparentemente, deveria proteger um “fundo falso”. Ele estava destrancado. Ao abrir, meus olhos focalizaram imediatamente a uma única direção. Lá estava ele. O livro de magias.

Almocei o mais rapidamente que pude e acabei comendo pouquíssimo. A minha ansiedade está enorme. Eu o havia encontrado. Eu não poderia estar mais feliz. O livro de magias que meu pai tanto me falara na minha infância. O mesmo livro que nunca dera a devida importância. Mas agora eu estaria com ele, e ele me levaria até Gabriel. Pelo menos eu esperava. Abri o livro em uma pagina qualquer e comecei minha leitura. Estava mais ou menos ao meio do livro. Era uma letra bonita e parecidíssima com a de Gabriel. A diferença é que essa parece uma letra com borrados, como se estivessem sido escritas com agilidade e de uma forma anormal, me transmitem medo.

“ Gabriel Bonsóar, 1815

Hoje estou aqui. Tentando imaginar qual será meu próximo passo. Por enquanto, eu sei que conseguirei escrever esse livro e poderei organizar tudo o que eu ainda sei. Talvez ninguém nunca imagine como eu estou fazendo isso. Então irei dizer. Hoje eu vi minha própria morte. Acontecerá daqui a um mês. O mal virá até mim. Somente não sei por que irei morrer se eu tenho poderes o suficiente para detê-lo. Talvez o que me diziam seja verdade, eu não deveria existir. É contra todas as leis da natureza. É contra tudo o que se possa imaginar. Eu concordo, eu sei que a maldição correrá até mim e eu terei a terrível certeza de que algo terrível acontecerá. Eu necessito saber se ela ficará bem. Ela não tem culpa de nada. Absolutamente nada do que ocorreu. Eu preciso salvá-lo, eu preciso deixá-la a salvo. Somente assim eu estarei em paz.”

É o livro de Gabriel. O meu Gabriel. Mas eu não entendi o porquê dessa letra terrivelmente diferente e que me ponderava nesse “mal”. Eu estou preocupada. Como alguém tão bom pode ter ocasionado algo tão terrível? E que algo é esse? Quem é essa pessoa que ele precisa proteger? Seria a mim? Como? É um pouco ilógico de mais. Em 1815, eu com certeza não estava viva. Eu poderia responder a todas essas perguntas se meu pai estivesse aqui. Eu preciso tanto dele nesse momento. É como se tudo rondasse em uma mesma pessoa, ou até mesmo duas. Como se essas pessoas pudessem me responder tudo e ao mesmo tempo, nada. Como se esse nada se tornaria exatamente tudo o que eu preciso, se ele: João – meu pai – estivesse aqui.

sábado, 20 de agosto de 2011

7º Capítulo: Mudanças de sentimentos

Protetor - Amizade    

              A escola está sendo ótima, eu já estava arrependida de achar que eu não me sentiria bem no meio dessas pessoas. Eu percebi que eu não me sentia bem mesmo, na outra cidade. A única coisa que contradiz isso é a Cecília. Ela continuava a me encarar, nos horários de entrada, intervalo e saída. Como se ela quisesse que eu desaparecesse, e eu não conseguia entender. Como uma garota que eu nunca havia visto consegue me odiar tanto? Ela era linda. Seu cabelo loiro caía sobre seus ombros e seguia até a linha da cintura e sua pele é de uma porcelana perfeita. As bochechas rosadas a tornavam uma “graçinha” Ela é, podemos dizer... Perfeita! Pelo menos a aparência. Nenhuma garota da escola chega a seus pés. Talvez nem da cidade. Ela é popular, mas parece que não aprova muito isso. Talvez eu esteja errada, mas eu sempre confiei no que eu senti. E dessa vez eu pareço estar mais certa do que nunca.
Minha vida está maravilhosa, tão maravilhosa que eu estou com medo. Eu estou cada vez mais próxima do meu protetor. Eu não o via, mas eu o sentia. Sentia como se cada vez mais houvesse um vínculo entre nós. Era como se nós nascêssemos para estar juntos, sempre. Eu não sabia seu nome, nem sua idade, não sabia sua aparência, nem seu jeito. Sei apenas que é nele que eu posso confiar. Sei que ele é meu agora, somente meu. Melhor amigo, acho que posso denominar assim.

            Como ele mesmo disse na primeira carta, ele estaria aqui como um amigo para me ouvir. E é isso que ele vem feito, e é ótimo, pois eu nunca confiei em ninguém e todas as vezes que fiz isso, eles me decepcionaram. Como eu já o citei é apenas meu. E eu gosto tanto dele, que seria capaz de protegê-lo acima de tudo. Tão contraditório. Ele é meu protetor, porém eu faria isso por ele. Eu tenho falado sozinha ultimamente. Faz muito tempo que eu não recebo nenhuma carta com ele como remetente.

***

Hoje era dia de fazer compras. Isso nunca me agradou, mas eu estava sem roupas devido à mudança. A saudade do meu protetor está tomando conta de mim. Eu sei que ele sempre estará comigo, mas a ausência de suas cartas dói de uma maneira completamente inevitável, inapagável e inexplicável.

            "Filha, eu vi um vestido maravilhoso para você." – A minha mãe tinha um espírito de adolescente melhor que o meu quando se tratava de comprar roupas.
           
            "Tudo bem mãe, eu vou olhar." – Ela percebeu meu tom desanimado.

            "O que aconteceu, filha?" – Ela realmente estava preocupada.

            "É só que meu protetor nunca mais falou comigo." – Meus olhos pareciam encharcar de lágrimas.

            "Isso é ótima filha. Pelo menos ele não deu nenhuma notícia ruim, não é mesmo?" – Ela começou com um tom triste e passou para a mais contagiosa alegria.
           
            "É, tem razão. E além do mais, mais cedo ou mais tarde ele irá vir falar comigo." – Eu me animei.

            "Certo, agora vamos antes que o vestido acabe." – Ela acrescentou.


            Chegamos em casa, completamente cheias de compras e até mesmo Rafael possuía suas sacolas. Minha mãe diz que um homem tem que aprender a se cuidar desde pequeno para poder amadurecer rápido e se tornar um jovem despojado.

            Eu abri a porta e as sacolas não me deixavam ver nada embaixo delas. Pisei em alguma coisa e quando olhei para ver o que havia no chão, lá estava ela, uma nova carta. E pela primeira vez, eu estava feliz.

Protetor - Irmandade

            Acabei de depositar todas as minhas roupas no guarda-roupa. Tudo amontoado de uma maneira que ficasse rápido para guardar. Eu estou extremamente ansiosa e receosa. E se acontecerá algo errado? E se ele não puder estar comigo? Eu nunca descobrirei sem lê-la, portanto estou decidida a abri-la agora.
           
            Peguei a carta e comecei a analisar o envelope. Um flash passou na minha cabeça. Desde aquele primeiro dia. Desde que eu descobri absolutamente tudo desse assunto: protetor e protegido. Eu não tenho como evitar e o pior é que eu não quero evitar. Abri um sorriso quando imaginei ver sua letra novamente. Recuei quando tentei abrir pela primeira vez, porém é inevitável, eu preciso dela do mesmo modo que preciso do ar.

        "Olá meu anjo! Espero que não se decepcione. Mas dessa vez eu venho somente constar que você se lembre de mim ao menos um minutinho de sua preciosa vida."

        Ele é um fofo. Acho que é a pessoa (mesmo talvez ele não sendo uma) mais fofa que já conheci. Acho que o que eu mais amo nele, é sua linguagem. É tão correta e isso a torna tão romântica. Calma, romântica? Foi isso o que eu disse? Talvez não seja a palavra certa. Mas, eu não encontro outra melhor agora.

        "Espero que esteja bem, espero que não queira que eu vá embora, jamais. Quero que saiba que você foi a única garota que esteve aqui, que eu não protegi por obrigação, ou por não possuir nada melhor para fazer. Eu não quero que aconteça nada de ruim a ti. Por isso, venho aqui por meio dessa mera carta, lhe dizer para cuidar–se."

            Eu acho que esse garoto gosta de me ver chorar. – Eu pensei piscando e fazendo uma lágrima cair.

"Como seu irmão, eu estou aqui. Para te proteger e conceder–lhe a minha existência se for preciso para te ver feliz, com saúde e inteiramente viva. Até mais! Estou contigo, lembre–se disso."


            Eu estou tão feliz, ele me mandou uma carta. ELE. O meu protetor. Quem daria sua vida pela minha. Eu quero fazer algo por ele. Queria poder trazer ele para mim. Quer dizer, para esse mundo, não exatamente, para mim. Não foi isso o que eu quis dizer. Para nós. Não, só para mim. Ai, não. Ultimamente eu estou dizendo coisas estranhas, sobre ele, sobre mim, sobre nós... Eu estou em uma terrível confusão de sentimentos. É tão contraditório, ele: quem faria tudo e até mais para mim. E eu, que gostaria que ele estivesse aqui. A pessoa mais inalcançável e inatingível, é a única que eu quero para mim.

Protetor – Amor?

            Meu protetor, eu ainda não conseguia acreditar que eu tinha um. Eu não havia imaginado como em apenas duas semanas após aquele intrigante acidente, pelo qual eu não possuía nenhum arranhão e fui salva por algo que eu não faço a mínima idéia do que seja eu poderia ter mudado tanto. Eu continuava a receber aquelas cartas.
           
Elas continuavam a me avisar de tudo o que aconteceria na minha vida. No começo eu tinha meus suspeitos, mas depois de receber algumas notícias sobre minha própria vida, eu percebi que havia alguma coisa muito, mas muito estranha por ali. Eu sabia que era esse tal protetor, mas eu não entendia porque ele havia ME ESCOLHIDO. Poderia ser meu irmão, ou até mesmo minha mãe. Mas fui eu! Eu estava agradecida por isso.

            Eu havia criado um grande vínculo com ele e todos os dias eu me perguntava se ele sentia o mesmo. Esse meu vínculo mudou repentinamente de ódio para amizade, de amizade para irmandade, de irmandade para amor. Amor? Será isso mesmo? Se você denominar de amor quando quereremos trocar tudo por alguém e vê–lo feliz, quando você percebe que a única coisa que te mantém aqui é ele, e quando o que você mais quer é estar junto todos os dias, todas as horas, todos os minutos da sua vida com uma pessoa apenas; O que eu sinto é amor. Mas é tão estranho, é completamente indiferente de um ”amor normal”. Todos os casais desse mundo não têm o grande problema que nós temos: a distância. E essa distância não é apenas de quilômetros e sim de talvez, séculos... E possuímos uma barreira que nos impede de vermos um ao outro, ou melhor, de que eu o veja. Eu realmente não sei como eu consigo o amar sem ao menos tê-lo tocado uma vez. Eu somente sei que é amor. E sempre será.

Trindom, Trindom

            Eu saí correndo para atender a campainha, minha mãe diz que eu pareço criança atrás de doce e eu até que concordo. Mas, eu sempre sinto quando é ele. E isso é tão sensacional. Suas cartas me trazem um sentimento que é inexplicável. Tão diferente e tão irreal.

"Olá minha princesa! Eu preciso ficar um tempo comigo mesmo. Vou demorar a escrever–lhe novamente. Desculpe-me e não se preocupe. Se for acontecer alguma coisa, eu lhe avisarei e protegerei. O problema é que eu não acho certo o que estamos vivendo e sentindo. Só posso te dizer uma coisa: Eu te amo e sempre amarei!”

            Continuei lendo

“Não importa que caminho você escolha. Não importa quantos anos você terá. Quando você precisar é só me chamar. Eu espero que não se magoe, não é certo. Nós somos inalcançáveis. E você sabe disso.”

            Na verdade, nada importava se eu o possuísse mesmo tão distante
           
                                                 “Com muito amor e carinho
                                                        Seu eterno protetor.”


Eu estava sem reação. Só sabia que eu iria guardar essa carta juntamente à todas as outras que ele me mandou. Mas antes, como de costume, olhei o verso e uma coisa mudou lá:

"De Gabriel Stoni Bonsóar
Para Júlia Stoni"

Gabriel, assim como o anjo. O meu anjo Gabriel.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

6º capítulo: Protetor


            A semana passou muito rápida e eu só percebi que tinha chegado ao fim quando acordei no sábado. Eu estava esquecendo-me dessas cartas. Quando eu vi todas aquelas letras com uma caligrafia esbanjando perfeição, acabei dizendo pra minha mãe que precisava de um tempo para ler, pois eu estava completamente em êxtase. A carta continua em minha escrivaninha: parada, completamente tampada por trabalhos e lições. Perdida. Não somente fisicamente, como também em meus pensamentos. Decidi viver sem preocupação com essas cartas, pois se eu não ligasse isso acabaria logo, se já não acabou.
           
Os dias passaram as semanas também e eu já estava a um mês naquela casa. Não havia cartas e eu estava chegando à conclusão de que era uma brincadeira de alguém que conhecia a história da família, e não é muito difícil. Alguém, que sabe que eu poderia ser a protegida segunda a lenda. Havia muitas pessoas da família que odiava não poder ficar com a casa, porque como minha mãe disse, ocorreu àquele terrível incêndio, então... A casa possuiu pelo menos um século. Uma relíquia.

É domingo, e eu tinha combinado com a Lúcia para nós passearmos pelos bares da orla, saboreando os petiscos e uma boa água de coco. Tenho certeza que será um ótimo dia.

Trindom, Trindom.

            "Bom dia, senhorita Julia Stoni, por favor?" – Era outro carteiro, agora uma mulher.

            "Sou eu mesma." – Respondi com uma aspereza desnecessária.

                        Uma carta para mim, da última vez isso não foi legal.

            "Assine aqui querida." – Ela apontou

            "Prontinho, obrigada!" – Dei um sorrisinho simpático tentando me desculpar ter sido tão grossa.

            Essa carta possui algo diferente. Remetente. Isso não me aliviou, pois era um remetente totalmente estranho e parecia em código. Parecia à mesma letra, a mesma caligrafia. Porém, o grande tempo que eu estive sem vê-la a tornou uma imagem nebulosa e sem nexo e eu não sei dizer se corresponde à mesma:

De G. Stoni
Para Julia Stoni

            "Deve ser algum primo distante." – Resmunguei comigo mesma e comecei a abri-la, imediatamente lendo.

"Julia, você saberá quem eu sou, abra a outra carta. Por favor, eu só quero te proteger, só isso. Você é minha agora. Quer dizer, eu preciso de você. Não, eu preciso que você esteja salva. Escute-me. Eu só estou aqui para te proteger, e se você não quiser, grite agora: VÁ EMBORA! E eu nunca mais te darei noticias, nem de sua vida, nem de mim."

            Eu não tive reação e quando pensei em gritar e acabar com tudo isso, a única coisa que pude pensar e dizer foi:

            "FICA, FICA COMIGO!" – Eu gritei desesperada

            O QUE EU ACABEI DE DIZER? As palavras saíram como uma onda de emoções que eu jamais senti antes.

"Talvez você não me queira mais aqui, mas mesmo assim, você tem que saber. Tome cuidado, hoje na volta de seu passeio haverá um acidente. Eu não quero que nada te machuque. Se eu pudesse estaria lá com você.
Mas, já que não estou PROTEJA-SE! E da melhor maneira é estando em casa, ao longo de toda essa noite. Lembre-se sempre : Eu estou aqui quando quiser."

            Uma lágrima caiu do meu olho. Eu nunca achei que um dia alguém faria isso por mim, será que eu estou ficando maluca? Como alguém pode viver tanto em função de alguém? Segundo a lenda ele pode. Mas essa lenda é real? Eu não posso acreditar.

            Resolvi ler a outra carta, ele merece isso. O meu protetor, ou não sei o que, merece isso. Afinal, essa carta provavelmente irá esclarecer as coisas entre nós.

"Olá, seja bem vinda Julia. Espero que você já conheça a história. Se não, não posso lhe contar agora. Saiba que eu sempre estarei com você, que eu sempre a protegerei. Darei a minha existência se for preciso."

            As lagrimas caiam de repente. Começando tranqüilas, lavando todo o meu rosto. Depois começaram a ficar mais urgentes, como uma chuva de verão. A única diferença é que ela não parecia que iria parar tão rápido.

"Não fuja, eu sempre estarei aqui. Eu serei seu amigo, para lhe escutar. Eu serei seu pai, para te proteger. Eu serei seu irmão, quando você precisar chorar. Eu serei até mais, se você quiser."

            Todas as lágrimas caíam sem parar e minha visão não agüentava. Eu somente sabia que eu queria estar com ele e ele queria estar comigo. Então nossa relação poderia ser tão produtiva e tão amigável que eu me arrependeria sempre por quere-lo longe de mim.

            "Obrigada!" – Foi à única coisa que eu consegui dizer.

            Eu limpei as lágrimas e continuei

            "Desculpe-me por não ter acreditado em você, e eu nunca irei lhe abandonar. Mas eu tenho que viver, estou indo para a orla com a Lúcia. Até mais. Cuidarei de mim e se cuide!"

            Passeamos tranqüilas pela noite de Maragogi. Realmente, é muito agradável. Comemos petiscos e conversamos sobre quase tudo – tirando o meu protetor. A única certeza que eu tinha, é que ele estaria comigo de alguma maneira e que ele está aqui.

Lucia pegou um ônibus e eu decidi caminhar, pois minha casa era próxima de onde estávamos. No caminho, eu estava andando rapidamente para não pensar muito em meu protetor e no acidente que ele havia comentado.
Parei e esperei o sinal fechar, eu estava preste a atravessar quando vi uma borboleta, ela era linda e a mais bela que eu já havia visto. Ela posou em uma flor e eu não atravessei, o sinal abriu e eu estava a apreciando. Ela voou procurando a liberdade. Eu me virei e quando fui atravessar, um caminhão bateu em outro, há pouco mais de um metro de mim. Eu entrei em pânico e a ponto de desmaiar. Ele me avisou, ele me protegeu. E por pouco eu não estava ali no meio dos dois caminhões, esmagada. Quem sabe até morta.

"PROTETOR" – Foi à única coisa que veio em minha mente antes de tudo escurecer.